
A indústria moveleira da região da Serra gaúcha tem costurado parcerias com algumas das grandes empresas do setor da construção civil, possibilitando ao comprador mudar-se para uma casa literalmente pronta, o que significa dizer também já mobiliada e decorada, tudo pago no mesmo pacote.
Essas promoções já ocorrem a mais tempo em São Paulo e agora vicejam também no Rio Grande do Sul. Só que todos os envolvidos na costura estão se esquecendo que existe um setor entre a indústria e o consumidor que emprega milhares de pessoas e está sendo extremamente prejudicado: o varejo de móveis.
Alguns podem imaginar que as parcerias ocorrem somente em alguns imóveis, enquanto o mercado oferece uma infinidade de apartamentos vazios. Só que os fatos mostram acordos preocupantes. No final de março passado, por exemplo, a indústria moveleira gaúcha lançou na Movelsul Brasil os programas Móveis e Imóveis.
Em parceria com algumas grandes empresas do setor de construção civil, o programa prevê a entrega das casas e apartamentos adquiridos no Minha Casa, Minha Vida, programa do governo federal em parceria com estados, municípios e empresas para construir um milhão de unidades habitacionais, totalmente mobiliadas.
A Movelsul é realizada na cidade de Bento Gonçalves, um dos maiores pólos moveleiros do País, com 265 indústrias de móveis, e organizada pelo Sindmóveis – Sindicato das Indústrias do Mobiliário de Bento Gonçalves. Ironicamente é uma referência para lojistas nacionais e importadores de todos os continentes.
E os parceiros da Movelsul foram nada mais, nada menos do que os construtores envolvidos com o programa habitacional Minha Casa, Minha Vida, que chegaram a 408.426 unidades contratadas só no primeiro ano de funcionamento, equivalentes a um investimento de R$ 22,8 bilhões. Por isso, é fundamental que setores como a indústria moveleira e construtores - que já foram beneficiados com a redução do IPI - percebam que o aumento de suas vendas não pode ser viabilizado à custa da destruição de um parceiro fundamental da cadeia produtiva.
Não esqueçam que o varejo de móveis, formado basicamente por médias e pequenas lojas, já está sufocado pelas cargas tributária e trabalhista. Além disso, um estudo de mercado realizado recentemente pelo SEBRAE e ESPM mostrou que a presença da verticalização - empresas do grande varejo de móveis e eletrodomésticos produzindo seus próprios móveis - pode gerar grande desvantagem para as pequenas empresas do varejo de móveis no estabelecimento de preços competitivos para o consumidor final.
O estudo citava o crescimento da parcela das construtoras que entregam seus imóveis já com cozinhas planejadas. Uma cadeia produtiva deve buscar um relacionamento ético para que todos os envolvidos ganhem. Assim, o consumidor final terá produtos de qualidade com preços justos. Ou vai ser um vale-tudo, com muitos de seus integrantes indo a nocaute.
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